| CRÔNICAS |
| Janelas |
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| Quebradas | ||
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Acabo de chegar do aniversário de um amigo, comemorado num enorme e disputado bar de sinuca. Após algumas cervejinhas inocentes, caminhei incontinenti ao banheiro para conter a incontinência urinária que somente cervejinhas inocentes podem causar. Ao entrar no recinto, o choque. Fugi de lá imediatamente, pensando na boa idéia que seria estar usando uma fralda geriátrica naquele momento. O banheiro estava um lixo. Não é todo mundo que age como porcalhão, mas é sabido que o mínimo indício de descaso pode desencadear uma bagunça de proporções epidêmicas (tal qual o estado lastimável daquele banheiro). É isso que retrata a "Teoria das janelas quebradas". Esta teoria foi utilizada dentro de um estudo apresentado por dois criminologistas da Universidade de Harvard, e estabelecia a relação de casualidade entre desordem e criminalidade. Em resumo, a teoria das janelas quebradas diz que se uma janela de uma fábrica ou de um escritório é quebrada e não é imediatamente consertada, logo outras pedras serão atiradas até todas as janelas se espatifarem. Sem responsável aparente pelo local, a decadência estabelecida acaba migrando para uma situação de abandono, abrindo espaço para a escalada da desordem generalizada. Dessa forma, toda pessoa é um desordeiro em potencial. Ele não precisa ser um desocupado ou cometer pequenos delitos pra se enquadrar nisso. Mas o potencial existe. O exemplo do banheiro é ótimo: basta entrar à noite num destes em qualquer bar da moda apinhado de gente e com muita bebida. Se ainda não deu pra perceber aonde eu quero chegar, vou direto ao ponto: depois de poucas horas, o banheiro vira um esgoto a céu aberto. Uma sujeira, um nojo. Papel jogado fora do cesto é a coisa mais educada que acontece lá dentro, se eu não quiser citar tudo o que não seria considerado tão educado assim. As mulheres, que passam horas ligadas na aparência, saem lindas e cheirosas para uma balada. Chegando ao local, muitas desenvolvem uma lordose inexistente para dar destaque ao que a calça justa já destacaria por natureza. Se a postura é falsificada, a perda da compostura no toalete é real. Muitas fazem no banheiro público o que nunca fariam na sua vida privada. É muita pose e desvio de coluna pra tanta avacalhação e falta de higiene. A ala masculina não é diferente. Apesar dessa mania de fazer cestinha com papel amassado, os homens apresentam problemas visuais durante a farra e perdem a capacidade de mirar o vaso sanitário corretamente. Só dão bola fora. E olha, com o tamanho daquele buraco, a miopia é mesmo impressionante. A comparação pode parecer exagero. O grande barato é que não é. Você pode não estar familiarizado com a teoria das janelas quebradas, mas duvido que a situação do banheiro não lhe seja familiar. Ela se aplica a tudo e pode acontecer no seu bairro, na sua rua, no seu carro, na sua casa. Como evitar a degradação? Com bons exemplos e tolerância zero, já que a alternativa seria tolerar uma fralda geriátrica só pra evitar a sujeira. Ninguém merece Por: Karen Szwarc Ilustração: Juvenal Ramos |
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| Sai da lata Maria |
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| por Karen Szwac | ||
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É mais um dia caótico em São Paulo, a começar pelo trânsito. A causa pode variar desde um acidente ocorrido no lado direito da Rua Direita até por motivo algum. O fato é que a cidade vive na mais pura normalidade. Meu carro é um ácaro entre os milhares de outros quando olhado sob a mira de um satélite. Dentro do veículo, eu, uma bactéria obediente no incessante jogo de abre-fecha dos faróis. Cada metro de asfalto ganho, equivale a três perdidos com a Vans-tamanho-ad-eternun e fuscas avacalhados que, sem aviso prévio, teimam cortar meu caminho, ignorando tecnologia óbvia (a seta) ou básica (a mão). Mas "tá tudo bem". Por motivos que não sei explicar, hoje me sinto uma bactéria feliz. Entre conjecturas imaginárias e esboços de sorrisos idiotas, gasto dois milésimos de segundo a mais pra engatar a marcha. É demais para os micróbios enfurecidos. Buzinadas e vaias ecoam dos parasitas ao redor. Uma moto passa zunindo. A bactéria motorizada, sem capacete, tem tempo de gritar: "Vai pra casa, Dona Maria!!!". Ele estava falando comigo, é? E o "Dona Maria", aquilo foi pra ofender? Caí no riso. Parece que Maria virou nome genérico de algum específico. Pior ainda, virou adjetivo, e que adjetivo! Fui chamada de barbeira. Barbeira ou não, a Maria era pra denegrir. Fiquei intrigada. Maria pode ser qualquer uma, qualquer coisa. Sei de marias-lavadeiras, marias-imperatrizes, sei de marias-meretrizes, maria-vai-com-as-outras, marias-santificadas, sei de marias-abusadas, humilhadas, sei de marias-agrestes, endinheiradas, marias-enjauladas, sei de marias-do-além-mar, marias-caminhoneiras, marias-amélias, sei de marias-da-xica, marias-da-silva, marias-chuteiras, marias-morenas, mulatas, blonderizadas, marias-bonitas, marias-feias, marias-fumaça, marias-madalena, sei até de Maria se não houvesse João. Essa teria achado o caminho de volta pra casa sozinha, tenho certeza. Ah, essas coisas da vida. Se eu estivesse atenta ao trânsito, não teria babado na direção e o mané da motoca teria calado, o que seria uma pena. Eu não teria escrito nada sobre as mulheres-marias. Somos tão genéricas e geniais, tão específicas e especiais. Incrível, mas por motivos que não sei explicar agora, me sinto uma Maria feliz. Aliás, ia quase esquecendo. Barbeira é a Maria, sua mãe!!! |
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| SERUMANO |
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| por Karen Szwarc | ||
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Passou o tempo de escrever sobre a sujeira que os cachorros deixam na rua. A maioria dos cidadãos conscientes já sai pra passear com seus totós segurando um saco plástico nas mãos. Assim que os dejetos, em suas multi-tonalidades de marrons, despontam pela avenida, são recolhidos pelos pseudo-lixinhos. Tenho visto esta cena à exaustão: o animal em plena função enquanto seu dono agita displicentemente o saco no ar, mostrando que vai limpar a sujeira, antes que os olhares sisudos dos transeuntes cruzem o seu. A situação constrangedora não dura mais que 40 segundos. Rapidinho. Vapt, vupt, sujou, limpou. Isso me faz pensar que o "sujou limpou" é pra toda vida. Cachorro vira adulto, mas nunca deixa de ser dependente. É claro que muita criança cresce, continua sujando e achando que não tem que limpar também. Cachorro é o filho que não foge dos teus carinhos, não te obriga a pegá-lo às 4 da matina numa festa, nem fica implorando por sorvete em pleno inverno. Cachorro não exige a sua atenção pra mergulhar no computador no segundo seguinte. Mas o amor por esses bichinhos não existe em detrimento das irreverências normais de filhos ou netos. Como diria um ex-prefeito paulista, cachorro também é ser humano e, como tal, nos ama e são amados de forma humanamente incondicional. Segundo a mitologia, Argos, o cão de Ulisses, foi o único a reconhecer o herói grego quando este finalmente retornou à casa, 20 anos depois, vestido de mendigo. Cachorro tem dessas coisas, nunca esquece quem o alimentou e tratou com carinho. O homem não é assim com o seu semelhante. A história está repleta de estórias sobre governantes totalmente tirânicos com o povo, mas enlevados com seus animais de estimação, fossem eles cavalos, gatos, macacos ou hamsters. Nós, brasileiros, somos únicos. Temos cachorro que é ser humano e temos ser humano que é cachorro. Somente hoje nos demos conta que esta última definição de gente foi a que subiu ao poder. A cachorrada assumiu e o problema é que quanto maior o bicho, maior o rastro de imundicie. A coisa já está tão extensa que fica difícil acompanhar. Pra piorar, a turma lá em cima é tudo bicho sem dono. Fica um apontando as porcalhadas do outro, mas o fato é que ninguém limpa. Vez ou outra aparece a carrocinha, tira alguns deles das ruas, mas não vence. A matilha é grande demais e a meleca vai tomar o país. Rapidinho. Vapt, vupt. |
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| Um perfeito |
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| CHATO | ||
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Era um daqueles almoços indolentes de sexta-feira, eu e duas amigas do trabalho discutindo um dos temas mais incômodos da atualidade: exercício físico X emagrecimento. Um cara ao lado virou na mesa dele, quase se jogando na nossa. Um baixinho atarracado, como qualquer baixinho que se preze. Músculos querendo pular da camisa engomada rosa claro, de tão apertadinha que estava. Moreno de sol, cabelos soltos ao vento - pelo menos assim parecia dentro do restaurante fechado. Sorriso franco, dentes alvos. Cabelos negros, com aspecto sedoso e revolto, como se usasse xampu especial para cabelos naturalmente ondulados. Unhas das mãos brilhantes, sapatos lustrosos também. O moço era um diamante ambulante de tanta luz que emanava de sua figura. Como se um último comentário nosso estivesse dotado de reticências, ele pegou carona nelas e entrou na nossa conversa, sem a mínima cerimônia. "... Meninas, isso parece o papo lá da minha empresa, o pessoal falando da preguiça de ir à ginástica... Mas eu não dou mole, 7 horas da manhã já tô malhando..." "Tá louco, 7 horas ainda estou pensando em levantar", disse uma de nós. Ele emendou como se acostumado com esse argumento, "Ah, mas vale a pena, quando você chega lá, todo mundo junto, um dá força pro outro...". Só se todo mundo acordasse junto também, pensei eu, imaginando como facilitaria uma tropa de gente 'dando força' na hora de sair da cama. A conversa foi daí pra frente. Ele era viciado em rotina saudável e tinha acabado de ir a um médico ortomolecular. Contou que por ter o sangue A positivo foi proibido de comer uma porção de alimentos, como arroz e que tais, proteínas em geral, legumes e verdes variados. Soja era o grande lance para pessoas com sangue A positivo, que é meu caso também. É por isso que nunca irei a um médico ortomolecular. Entramos em temas adjacentes. Eu, encabulada, revelei que havia engordado 8 kilos depois de parar de fumar. O cara continuou no caminho correto da vida, me parabenizando pela decisão, já que engordar faz menos mal que o cigarro, e que a ginástica ajuda muito a perder peso, blá, blá, blá. Exercício, amigo? Comigo só se for ginástica corporativa. Eu faço levantamento de peso de ansiedade, alongamento de paciência pra lidar com o chefe, corrida aeróbica pra apagar incêndio, natação contra a corrente do concorrente, também trabalho com arremesso de ego do cliente e me forço na flexibilidade da agenda. Ufa! Mas, concluindo, durante o resto do almoço o sujeito engomadinho ficou ditando regra pra cima da gente. O cara era todo certinho! Provavelmente ele nunca dormiu sem escovar os dentes, nunca trocou a cor das meias por engano, nunca comeu um yaksoba na cama e derrubou shoyo no travesseiro, nunca se atrasou para um compromisso sem avisar, nunca dormiu além da conta, nunca se envolveu com alguém que não deveria. Aposto que é do tipo que só aceita vitamina de frutas ou iogurte com fibras no café da manhã, que carrega barrinhas de cereal no bolso do paletó, que só usa o perfume da mesma marca que o after-shave, que não receia ir ao urologista fazer check-up uma vez ao ano, que não atrasa o pagamento das contas nem o INSS da empregada, que tem sempre dinheiro na carteira, nem que seja o troco do estacionamento. Seu carro está sempre com o tanque cheio, a agenda eletrônica tem todos os contatos em dia e seu celular nunca ficou sem bateria. Esse é daqueles príncipes que você sonha encontrar um dia mas que a longo prazo acaba odiando, porque não dá pra conviver com a constante lembrança do quanto preguiçosa você é, do quão desorganizada está sua vida, do quanto é possível ser tão imperfeita e falha. Ai, como a vida deve ser chata ao lado de um homem assim! |
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| Que seja eterno... |
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| enquanto dure! | ||
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Antigamente, no primeiro encontro com "aquela" pessoa especial, eu acabava ouvindo muito mais do que falando. No final, percebia que minhas vontades e desejos nunca eram satisfeitos, porque continuava calada durante o relacionamento. Um dia eu disse: chega! e mudei. Hoje, de cara, coloco quais são minhas expectativas, deixo claro onde começa o espaço de um e o espaço do outro. Para uma convivência saudável, privacidade é fundamental. Da última vez aconteceu assim. Eu havia acabado de sair de um envolvimento maravilhoso de 5 anos. Terminou por um motivo bobo, talvez fosse momento de reciclar, enfim, às vezes essas coisas acontecem sem muita explicação. Fiquei pouco tempo sozinha, até que uma grande amiga minha nos apresentou. A química entre nós bateu na hora. Senti o olhar firme sobre mim sem desvios envergonhados, o timbre de voz denotava personalidade, as mãos eram calejadas, forjadas pela vida dura. Achei que podia dar certo. Apostei na gente. É claro que demorou um pouco até tudo se ajeitar, afinal eu ainda tinha na cabeça o meu último envolvimento. Fazer comparações era inevitável, o que gerava mágoas e brigas, brigas estas que começaram na cozinha, com copos e pratos sendo trincados ou simplesmente despedaçados sob a pia de granito. O quebra-quebra continuou com as cúpulas dos abajures, misteriosamente destroçadas na calada da noite. Muitas das coisas destruídas só fui descobrir no pós-guerra do relacionamento que, aliás, nem passou do período de experiência, não durou 3 meses, foi como um estágio com um grande estrago... em casa. A coisa fedeu no dia que peguei a figura de frente pra janela da sala, comendo a comida de colher direto da panela, e com um pé apoiado na batata da outra perna como se estivesse num poleiro. Nossa química se tornou um problema físico, eu queria distância daquela pessoa, mas achei por bem esperar o final de ano passar, que é desumano se desvencilhar de alguém nesta época festiva. Pois bem, chegando em casa num destes dias frios de verão, encontro a seguinte pérola escrita com letra sofrível: " D. Karem, a senhora não estava, não pude esperar, não vou vir mais. Peguei só o que era meu. A chave joguei embaixo da porta. Não me ligue, eu ligo pra senhora. Cleonice" Como!!!??? Em primeiro lugar, meu nome é Karen com N! Depois, como é que é? Pra eu não te ligar que você me liga? Isso é o fim da picada. A figura não quer nem discutir a relação. Vai dizendo: "ó, eu que te ligo, viu, liga não". Eu com dó da empregada e ela age como se minha casa fosse a casa de Irene? E eu sou bicho pra ela sair foragida desse jeito? É incrível, quando se está apaixonada e o sentimento é mútuo, você tem a nítida impressão de que encontrou sua alma gêmea e não dá pra imaginar como foi possível viver até então sem aquela empregada. Isso é claro, até descobrir que ela andou lavando roupa suja fora de casa ou misturando a roupa branca com a colorida dentro da máquina. A raiva que eu senti era tamanha que deu vontade de quebrar o que restou de um abajur na cabeça dela, coisa que eu faria se ela não tivesse fugido ou caso eu tivesse coragem, mas agora que o sentimento abrandou, sei que foi melhor assim. Empregada que eu tive, como a Dora que ficou 5 anos comigo, não encontrarei nunca mais. Além de ser excelente profissional, ela tinha carinho e respeito por mim, assim como eu tinha por ela. Isso sim foi uma relação especial e duradoura. Ah, Dora, ah, Dorinha, volta! |
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