Artacho Jurado
à frente de seu tempo
Alguns prédios têm a cara de Higienópolis. Basta perguntar a um morador do bairro o que mais identifica a região e a resposta, quase inevitável, será o Edifício Bretagne, com seus jardins cinematográficos, marquises coloridas e curvas arquitetônicas. Outra resposta comum é apontar o Cinderela, o edifício que lembra uma casa de contos de fadas, na Rua Maranhão, esquina com Sabará. Por trás desses prédios existe uma figura controvertida, a do construtor João Artacho Jurado, que, nos anos 50, década da verticalização do bairro, trouxe para a região a alegria e as cores de seus projetos visionários: além dos citados, os edifícios Parque das Hortênsias, Parque das Acácias (Apracs), Piauí-Sabará e Tradições Brasileiras - que ele chamou de Dona Veridiana, vendeu antes de terminá-lo, e, por isso, difere dos outros, com a fachada modificada.
Chamado de brega, de kitsch, pelo excesso decorativo das suas construções, e de oportunista, em razão do sensacionalismo que cercava seus lançamentos, Jurado foi o alvo preferido dos arquitetos da época. Era difícil aceitar o sucesso de quem não obedecia às regras estritas do movimento modernista, que então ditava os padrões da arquitetura: contenção lógica, racionalidade da construção e princípios de economia e funcionalidade; e, ainda pior, de quem não tinha diploma de engenheiro ou de arquiteto, pois nem sequer terminara o curso primário. Jurado era simplesmente um construtor com grande intuição para negócios e que vendia seus empreendimentos de um dia para o outro. Hoje, a imagem desse empresário polêmico está sendo reavaliada por uma outra geração de arquitetos. Autor do livro "Artacho Jurado: Arquitetura Proibida" (Editora Senac, 2008), o arquiteto e professor Ruy Eduardo Debs Franco diz: "Em Higienópolis, você olha para o lado e vê uma centena de prédios. São modernos, seguem as regras de fachadas sem ornamento, monolíticas. Qual deles tem graça? Os de Jurado têm. Sua arquitetura era a cara dele: prédios megaalegóricos, exageradamente decorados, supercoloridos, com formas inusitadas. Mas isso era motivo de riso para os seus detratores".
Não é tarefa simples classificar o estilo de Jurado. Se é chamado por alguns de pós-moderno, não faltaram em seus projetos inúmeras referências modernistas. Ele faz citações "a Niemeyer, no uso de pilotis, rampas, espelhos d'água, nos pilares redondos em ambientes grandes; a Frank Loyd Wright na fachada ornada em pedra cortada," explica Debs Franco em sua dissertação de mestrado "A obra de João Artacho Jurado" (Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2004). Por outro lado, faz também referências a Gaudí, "nas curvas rocambolescas em lajes de cobertura e muitas cores".
Para os puristas da arquitetura, Jurado era um engodo, mas entre a classe média que começava a trocar suas casas por moradias verticais e entre os ricos que compravam os apartamentos para investir em aluguéis, ele era um sucesso. Inovador, antecipou em 50 anos uma tendência atual de mercado. "Ele instala o conceito que hoje todo empreendedor imobiliário sabe, o de prédio-clube. É com isso que ganhou o público. E, sobretudo, porque ele vendia um item: o conforto", explica o autor do livro, lembrando que o Bretagne, construção de 1958, foi o primeiro prédio da cidade a ter piscina. O cenário de seus projetos remetia à fantasia dos filmes de Hollywood, com parques, jardins de inverno, solário, piscina, playground, sala de música, de leitura, salão de festas e, mais um exemplo de sua visão de futuro, garagens no subsolo.
Outra atitude precursora de Jurado era a forma como entregava os apartamentos, com as plantas livres, dando liberdade para a disposição interna.
Hoje prática comum, o lançamento de condomínios com a presença de celebridades já era uma estratégia de Jurado, que convidava até estrelas norte-americanas para conhecer o prédio. O então famoso cowboy Roy Rogers esteve no Bretagne, bem como a Miss Estados Unidos 1958. O prédio fazia parte do roteiro turístic
Etty Fraser
A grande mamma do teatro brasileiro
Sua primeira personagem como atriz foi a mãe do ator Renato Borgui na peça "A Incubadeira", dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, em 1959. Aos 28 anos, ela já interpretava o primeiro de uma série interminável de papéis que têm em comum a principal figura feminina das famílias. Hoje, aos 75 anos, a simpática e bonachona Etty Fraser continua a colecionar papéis do gênero, agora como a avó das famílias da ficção. Nascida a 8 de maio de 1931, desde meninota a graciosa Etty já demonstrava à família que levava jeito para atuar. Mas antes de marcar seu encontro definitivo com os palcos, Etty teve uma vida bastante movimentada para os padrões da época. Filha de mãe polonesa e pai argentino descendente de escoceses, Etty Fraser nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema. Aos seis anos de idade veio morar em São Paulo com a família. Seu pai trabalhava para uma grande multinacional inglesa e por isso viajava bastante. Recém-chegada à terra da garoa, a família se instalou numa casa na Av. Brigadeiro Luis Antonio e matriculou Etty e sua irmã, Vivienne, no Ginásio Elvira Brandão, uma tradicional escola católica que ficava na Alameda Jaú, entre a Rua Augusta e a Padre João Manuel. Nessa escola, a futura atriz teve colegas que ficariam famosos muito tempo depois, como Paulo Autran, Célia Biar, Paulo Maluf e Eva Wilma. Ao terminar o ginásio, ela e sua irmã foram estudar num colégio interno na Inglaterra, em Luton, no condado de Hertfordshire, por três anos. Foi lá que Etty aprendeu inglês e gabaritou-se para dar aulas do idioma. Em 1948, ela retornou para o Brasil e começou a ganhar a vida como professora. Lecionou na Cultura Inglesa de Higienópolis, no Mackenzie e no colégio Ofélia Fonseca. Foi praticamente nessa época que ela iniciou sua relação de amor com o bairro de Higienópolis. Em 1952 seus pais compraram um apartamento na Rua Sabará, escolhido a dedo por causa da localização. Eles queriam ficar próximos às escolas onde Etty lecionava. E foi através do convite de uma aluna que a então professora de inglês deu seu primeiro passo em direção à verdadeira vocação profissional. Ambas foram assistir "Vento Forte Para Papagaio Voar", num pequeno teatro da Rua Jaceguai. Nessa noite ela conheceu a turma toda de estudantes de Direito que formaria em pouco tempo o Oficina, um dos grupos mais importantes da história do teatro brasileiro. Zé Celso, líder do grupo, a convidou para fazer um teste para um papel em sua próxima peça, "A Incubadeira". A prova de fogo foi marcada para 8 de maio de 1959, por coincidência dia do aniversário de Etty, numa casa na Av. Higienópolis, pertinho de onde ela morava. "Minha vida foi um mar de rosas" A atuação na peça "A Incubadeira" rendeu-lhe prêmios de melhor atriz e depois dessa estréia triunfante, ela jamais precisou voltar às aulas de inglês. Passou a integrar o Oficina, grupo do qual fez parte desde o surgimento e onde veio a conhecer o marido, o também ator Chico Martins. Em 2006, Etty Fraser comemora 47 anos de carreira. Em quase meio século de dedicação à arte da dramaturgia, a atriz já quase perdeu a conta de quantos espetáculos encenou e o número de novelas e filmes de que participou. São mais de 25 peças de teatro, 15 novelas, 13 filmes, e ainda um programa televisivo de culinária que ficou 8 anos no ar, o Boca do Forno, que depois passou a se chamar À Moda da Casa. O programa de culinária, aliás, embora ainda seja recordado com carinho por muitos de seus fãs, não lhe traz tanta saudade. "A culinária não é minha praia. Aceitei porque era um salário ótimo, muito mais do que se fosse fazer novelas. Mas durante os anos em que apresentei o programa, cheguei ao meu peso máximo, 125 quilos. E isso me trouxe problemas de saúde. Hoje peso 80 quilos e me considero uma gorda alinhadíssima", diverte-se. Depois de ter dado vida a tantos personagens, Etty admite ser difícil eleger seus papéis preferidos. Mas ela confessa guardar um lugar especial no coração para "Akoulina", que int
O jornalista
Heródoto Barbeiro
No rádio, na tevê, no jornal ou na literatura, Heródoto Barbeiro mantém-se fiel ao princípio básico da sua profissão: o bom jornalismo

Pode-se dizer, sem exagero, que Heródoto Barbeiro "respira" jornalismo. São quase 20 horas por dia de imersão no trabalho, entre idas e vindas a estúdios de rádio e tevê, produção de textos, apresentação de programas, reuniões e projetos paralelos. "Acordo às 4h50 todos os dias e chego à Rádio CBN por volta de 5h30 para acompanhar os acertos finais do jornal que entra no ar às 6", diz. São mais de três horas de programa. "Quando saio do estúdio, atuo como Gerente de Jornalismo da emissora. Passo o resto do dia na CBN trabalhando com notícias, gravações e questões administrativas."
Tanta dedicação rendeu a Heródoto e sua equipe o Troféu Dia da Imprensa 2006. Em enquete realizada pela Revista e pelo Portal Imprensa, que tinha o objetivo de eleger o melhor da imprensa brasileira do ano, o Jornal da CBN foi eleito o "O Melhor Programa Jornalístico de Rádio 2006".
A profissão que o destaca, porém, foi uma escolha tardia, como ele mesmo conta em seu site pessoal. "Da frigideira para o fogo. Foi o que me disseram quando resolvi trocar de profissão. Depois de uns 20 anos de aulas de História, muitos deles na USP, sucumbí ao desejo de virar jornalista. Isto é mais difícil quando você tem mais de 40 anos e dedicou parte de sua vida se especializando em uma determinada área do conhecimento. O desafio foi maior do que o meu bom senso", diz.
"Voltei ao ambiente universitário com grande prazer e humildade fui assistir aulas de alguns ex-colegas, e de algumas disciplinas que tinha lecionado, em faculdade de Jornalismo. Deixei de falar e escrever no passado e aprendi a falar e a escrever com os verbos no presente. Deixei a História e passei para o Jornalismo. Ao invés de olhar para trás, iniciei um treino de olhar o que acontecia a minha volta e o que era e o que não era notícia para divulgá-la. Esta é a missão do jornalista : contar para uma parte da sociedade o que a outra parte está fazendo."
Para alimentar a sociedade com notícias, ele não mede esforços. No final da tarde, o jornalista, de 60 anos, deixa a CBN para dirigir-se à TV Cultura, onde apresenta o Jornal da Noite. Encontra tempo, ainda, para escrever livros (só em junho foram dois lançamentos), resenhas e artigos. "Um trabalho é o prolongamento do outro. Antes de entrar no ar na CBN, passo os olhos no que veiculamos na noite anterior na tevê. E, antes de chegar à Cultura, estou informado das notícias do dia. Se não fossem coisas complementares, não daria para fazer", afirma. Não há distinções ou preferências entre os tipos de veículo onde atua, garante.
"O que mais me agrada é fazer jornalismo - que acaba sendo o mesmo em todos os lugares. É exatamente a mesma coisa. É uma bobagem achar que o que se faz em diferentes veículos é diferente. Me dá muita satisfação falar pela manhã em uma rádio, que é o meio de comunicação mais importante naquele horário, e na tevê, à noite", explica.
Casado e pai de dois filhos, um comerciante e outro piloto de helicóptero, Heródoto deixou a Vila Madalena oito anos atrás para viver em Higienópolis. "Decidi mudar para o bairro porque, em primeiro lugar, minha casa fica próxima das duas empresas onde trabalho, que são a Rádio CBN e a TV Cultura. Em segundo lugar, minha mulher adora. E, em terceiro, porque tenho um jardim maravilhoso", diz. Quando tem tempo, o jornalista costuma andar pelas ruas de Higienópolis, ir ao shopping e "tomar um bom café".

Jornalismo no Brasil
Em 26 anos de carreira, Heródoto Barbeiro perdeu a conta de quantas notícias apresentou. Mas, e se pudesse escolher uma? "Eu gostaria de anunciar que os povos da terra resolveram deixar de lado suas guerras e que a humanidade fazer a paz." O jornalista se mostra satisfeito com o papel atual da imprensa brasileira e mundial. "Acredito que a imprensa hoje difundida também pe